“Eu não aguento mais”, confessa uma professora temporária ao Jornal de Brasília. “É um ambiente doente”, completa a mulher, que pediu para não se identificar. O medo de represálias a faz pedir sigilo a cada cinco minutos durante a conversa que travou com a reportagem. O drama, relata, começou com a assunção de uma nova coordenação no Centro de Ensino Especial de Sobradinho, o CEE 01. Ercília Tereza Gomide, a nova responsável pela coordenação, é acusada de difamação, constrangimento público e assédio moral em relação aos professores e funcionários da instituição.
As indisposições com a gestora se agravaram em meados de março, quando uma outra professora foi afastada pela perda de uma gestação. Também temporária, na volta ao serviço, em reunião com boa parte do corpo docente, teria sido chamada de “louca” e “desequilibrada” – conforme relatos, os presentes se chocaram com a ofensiva, mas Ercília teria dito que nada aconteceria consigo. Em outra denúncia, é dito que a coordenadora teria proferido, a título de xingamento, as palavras “esquizofrênica” e “doida” para se referir a outra funcionária.
Conforme ela própria publicou no no grupo de WhatsApp “Pedagógico Vespertino”, destinado a considerações sobre o funcionamento da instituição no turno indicado, houve um mal-estar com os outros colegas. Segundo Ercília, houve reação vista no comportamento dos funcionários após o episódio com a servidora, o que ela entendeu como “assédio diário”. “Então agora eu vou pra cima”, escreveu a mulher, apoiada em um laudo que atesta o diagnóstico no espectro autista. De fato, foi. Lavrou dois boletins de ocorrência na delegacia virtual – serviço digital da Polícia Civil.
Indignada com as reclamações de pais de alunos que foram prejudicados por uma sequência de atestados na CEE 01 de Sobradinho, ela compartilhou processos do Serviço Eletrônico de Informações (SEI), procedimento interno cujo acesso é restrito a servidores envolvidos nas denúncias da população. No arquivo estão nome, endereço e telefone dos genitores de um aluno que ficou sem atendimento na escola. “Os temporários não podem ter acesso a isso justamente em respeito ao sigilo das informações”, explica uma professora, invocando a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Ercília confirmou à reportagem que encaminhou os processos aos grupos, mas defendeu que não extrapolou nenhuma norma. “Enviei, sim. Não é sigiloso. No grupo só tem professores, e enviei lá porque o diretor, numa reunião onde eu estava presente, colocou o assunto como se alguém tivesse falado para a mãe do aluno em questão que a gente havia pago dias de greve sem alunos”, pontua, além de acrescentar que “dentro da SEEDF é até assédio a gente exercer algum tipo de discriminação”, no caso de diferenciar professores efetivos e temporários no acesso aos documentos SEI. A partir desse episódio, conforme relatou, teria sido alvo de comentários como “alma sebosa”.
“Não estou pronta para voltar ainda”
Ercília, segundo mostram as conversas obtidas pelo JBr., passou a destratar alguns servidores por opiniões corriqueiras. Um dos exemplos é do dia 29 de maio, quando uma professora recebe elogios no grupo já citado por conseguir levar a cabo um projeto de extensão na escola. A coordenadora reagiu a um dos comentários em conversa privada, direto para a autora da mensagem de congratulação à colega. “Nem parece (…) que falou que ela não valia nada”, disse, em mensagens adaptadas pela reportagem pois continha nomes de pessoas envolvidas no caso. “Vocês vão ver que compraram briga com a pessoa errada”, finaliza Ercília.
À reportagem, a professora que pediu sigilo relatou que procurou a delegacia em duas oportunidades. Foram lavrados B.O.s contra a coordenadora, um por ameaça – cujo andamento possibilita o pedido de medida protetiva – e outro por assédio. O fato de ser temporária e depender da avaliação profissional, assinada pela coordenação, para se manter no emprego gera um temor de retaliação e perda de um cargo que garante a subsistência da docente. Também são relatadas coações nas reuniões de planejamento semanais ou quinzenais, as “coletivas”. Duas reclamações foram feitas à ouvidoria da Secretaria de Educação.
Em ligação, Ercília negou ao Jornal de Brasília que tenha cometido assédio contra a funcionária que perdeu um filho e indica que é, na verdade, a vítima da história toda. “O que está acontecendo lá é que desde meados de abril – eu abri cinco ouvidorias contra os assédios que tenho sofrido da direção, Cristiano, e da professora Michelle, de um grupo ali dela. Isso já está na corregedoria da SEEDF. Estou afastada da escola há 40 dias, por causa de atestados médicos psiquiátricos”, relata. O afastamento ao qual se refere foi prorrogado pelo médico psiquiatra, conforme conta ao JBr. “Meu médico resolveu prorrogar meu atestado, porque acha que eu não estou pronta para voltar ainda”, pontua.
Ainda assim, nas conversas por aplicativo com outros funcionários, chegou a compartilhar a escala de trabalho para os “momentos coletivos” da escola, com a legenda “segunda tô de volta. Para alegria de uns e infelicidade de outros, mas to de volta kkkkk”. A reportagem também entrou em contato com Cristiano Silva Barbosa, mas ele não quis responder às perguntas feitas, indicando que a Secretaria de Educação falaria pelo caso. A Secretaria de Educação, por sua vez, não respondeu aos questionamentos do JBr.
Com informações do Jornal de Brasília

















