Começou ontem a campanha eleitoral e os candidatos ao Palácio do Buriti têm pela frente uma longa caminhada para mostrar aos 2,2 milhões de eleitores aptos a votar no Distrito Federal qual será a melhor alternativa para a gestão da capital do país. A tarefa não é nada fácil, mas é a partir do perfil desse eleitorado que os concorrentes podem ter em mente quais as principais pautas de interesse da população.
Para ter uma noção mais detalhada sobre os eleitores brasilienses, o Jornal de Brasília ouviu a professora Ana Maria Nogales, do Departamento de Estatística da Universidade de Brasília (UnB), que participou do estudo do ObservaDF sobre o perfil do eleitorado do DF para as eleições de 2026. A pesquisa leva em conta dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) consolidados em 20 de julho deste ano, e as tendências que se apresentam podem definir pontos centrais das campanhas eleitorais.
A primeira questão que surge ao olhar para esse perfil é o protagonismo feminino. O eleitor do DF é em sua maioria composto por mulheres (54,1%), cerca de 1,1 milhão do total de pessoas aptas a votar nestas eleições. Para Ana Maria, essa é uma tendência bastante relevante porque o voto das mulheres tende a se distanciar do voto dos homens. “O voto feminino está muito mais voltado a questões sociais, de cuidados, de trabalho feminino, nas questões da participação da mulher”, comentou. Para a pesquisadora, outra pauta importantíssima que deve nortear o voto feminino na corrida eleitoral é o problema da violência contra a mulher.
O estudo também coloca como ponto central na análise do perfil do eleitorado do DF o envelhecimento da população. Em 2026, 20,4% dos eleitores brasilienses são pessoas idosas. Por outro lado, entre os mais jovens, a pesquisa revela a surpreendente redução do número de eleitores de 16 a 17 anos. Enquanto em 2022, havia 31.307 eleitores nessa faixa etária, em 2026 o número é de 19.194. É uma redução de 38,7% entre as duas eleições. Se há menos jovens aptos a votar neste ano, na outra ponta o número de pessoas com mais de 70 anos cresceu 31% em relação a 2022, chegando a 203.409.
“Essa é uma tendência que a gente já vê há muito tempo. O censo de 2022 mostrou isso claramente, e as projeções do IBGE mostram que na década de 2040 a gente começará a ter um decrescimento populacional. Com isso, você tem um reflexo no eleitorado também, que é muito mais velho do que há 4 anos. Esse público deve ser alvo das pautas colocadas pelos candidatos. É um público que demanda muita atenção à saúde”, destacou Ana Maria.
Outro ponto que promete ter relevância no resultado da corrida eleitoral é a análise do perfil considerando as Regiões Administrativas (RAs). O estudo levou em conta grupos de RAs de acordo com a renda. Os eleitores das RAs de alta renda correspondem a apenas 18% do total de eleitores do DF. Nas regiões de renda média-alta, encontram-se 32% dos eleitores; nas de renda média-baixa, 30,4%; e nas de baixa renda, 19,7% do eleitorado. Para Ana Maria, os candidatos devem levar em consideração, por exemplo, os eleitores de regiões como Ceilândia, Planaltina e Samambaia.
“Pautas que podem ser caras para os eleitores eleitores de mais alta renda não terão tanta repercussão naqueles eleitores de mais baixa renda porque o cotidiano é muito diferente. Por exemplo, para os eleitores de baixa renda, que precisam cotidianamente se deslocar do trabalho para a residência, da residência para o trabalho, a gente vê que a pauta da mobilidade urbana no Distrito Federal pode ser muito importante. A gente vê todo dia engarrafamentos, baixa qualidade no transporte público”, comentou a pesquisadora.
O estudo ressaltou que as desigualdades socioespaciais que marcam o território do DF também se refletem nos perfis dos eleitores. Nas regiões de alta renda, os eleitores apresentam estrutura etária mais envelhecida e maior proporção de casados do que nas demais regiões; são majoritariamente brancos (63,4%) e têm ensino superior completo (58,2%). Nas regiões de baixa renda, os eleitores são mais jovens (48,2% têm menos de 40 anos), pretos ou pardos (75,3%), solteiros (64,5%) e com baixa escolaridade (27,1% não concluíram o ensino fundamental).
“É um dado que choca muito. Quando a gente vê as informações do TSE, segundo essa questão das regiões, é que nas regiões de mais alta renda, nós temos o perfil de eleitores em que 58% têm o ensino superior completo. Quando você vai para as regiões de mais baixa renda, esse percentual cai para 7%. É drástica a diferença entre um perfil e o outro. Você tem um perfil muito escolarizado, nas regiões de mais mais alta renda e um perfil de muito baixa escolaridade naquelas de mais baixa renda. Em geral, o eleitorado do DF é mais escolarizado do que o brasileiro em geral. Mas quando olhamos dentro do Distrito Federal, a gente vê essa desigualdade”, complementou Ana Maria.
Como pontuou a professora sobre a análise da escolaridade do eleitor do DF, o estudo destacou que o eleitorado brasiliense é mais escolarizado que o brasileiro em geral. Entre os eleitores brasileiros, 5,5 milhões são analfabetos, o que corresponde a 3,5% do eleitorado, e 27% não concluíram o ensino fundamental. No DF, essas proporções são de apenas 0,8% e 14,8%, respectivamente. Por outro lado, 65% dos eleitores do DF haviam concluído o ensino médio, dos quais 23,3% tinham o ensino superior completo. Em todo o país, essas proporções caem para 39% e 11,4%, respectivamente.
Agendas políticas começam a se formar
Para Ana Maria, fica claro que a partir da análise do perfil dos eleitores brasilienses muitos candidatos devem montar suas agendas a partir das principais tendências que se apresentam para o cenário político da capital. Para Leandro Gabiati, cientista político e diretor da Dominium, a campanha eleitoral no DF deve se organizar em três prioridades.
“No plano da gestão local, os temas centrais são segurança pública, saúde e mobilidade, apontados por pesquisas de opinião como os principais pontos de interesse do eleitor do DF diante de um eleitorado”, avaliou. Já no plano político-eleitoral, continuou Leandro, a disputa se organizará entre continuidade e ruptura. “De um lado, a governadora Celina Leão (PP) buscando a reeleição à frente de uma ampla coligação apoiada por PP, MDB, Republicanos e União Brasil; e de outro, candidaturas de oposição como as de Leandro Grass (PT) e Ricardo Cappelli (PSB), além de nomes de centro e centro-direita como José Roberto Arruda (PSD) e Paula Belmonte (PSDB)”, pontuou. Por fim, de acordo com o cientista político, a terceira questão que deve ser central no cenário do DF, no plano econômico e de gestão, é o caso BRB/Master, que deverá estar presente em todos os debates e discursos dos candidatos de oposição para tentar desgastar a governadora.
Para Leandro, dois elementos estarão presentes de maneira mais intensa na formação da decisão do eleitor do DF. “O primeiro é o da avaliação de desempenho: segurança pública, saúde e custo de vida tendem a ser os critérios mais citados, num cenário em que a maior parte do eleitorado ainda não decidiu seu voto – levantamentos indicam que mais de 60% dos eleitores permanecem indecisos na modalidade espontânea, o que confere à campanha oficial, a partir de domingo, peso decisivo na formação de preferências”, destacou.
“O segundo plano é o do alinhamento político decorrente da polarização nacional. O Distrito Federal tem base conservadora consolidada, e a articulação de Celina Leão com nomes como Damares Alves (Republicanos) e Michelle Bolsonaro (PL) busca capturar esse capital eleitoral. Esse fator, no entanto, não deve ser lido como transferência automática de votos: a força de um líder político nacional ou de uma legenda majoritária no DF depende da capacidade de mobilização da máquina local e da percepção de gestão. É esse cruzamento entre avaliação de governo e alinhamento ideológico, mais do que qualquer um dos dois isoladamente, que deve definir o resultado em outubro”, finalizou o cientista político.
Diante desse cenário, os candidatos já começaram a se movimentar em diferentes regiões do DF para atrair os votos desse eleitorado. No Distrito Federal, os eleitores estão distribuídos em zonas eleitorais que abrangem todo o território. São 21 zonas eleitorais, 7042 seções e 614 locais de votação. Algumas zonas eleitorais coincidem com o recorte territorial das Regiões Administrativas, como as zonas 4 e 17, que correspondem a Santa Maria e Gama, respectivamente. Mas, a maior parte das zonas compreendem mais de uma RA, como a zona 2, que abrange Paranoá, Varjão, Itapoã e Lago Norte; a zona 5, com Sobradinho, Sobradinho 2 e Fercal; a zona 6, com Planaltina e Arapoanga; a zona 9, que engloba o Guará e SCIA-Estrutural; a zona 10, com Núcleo Bandeirante, Riacho Fundo, Candangolândia e Park Way; a zona 18, que inclui Lago Sul, Jardim Botânico e São Sebastião; e a zona 11, com o Sia, Cruzeiro e Sudoeste/Octogonal e parte do Plano Piloto. Outras zonas têm recortes territoriais que abrangem partes de uma RA, como as zonas 1 e 14, que correspondem à Asa Sul e à Asa Norte do Plano Piloto, e as zonas 3, 15 e 20, que englobam partes de Taguatinga.
Em média, serão 320 eleitores por seção eleitoral; as zonas 10 e 2 têm um pouco mais de 350, e as zonas 1 e 3 têm menos de 300. Por outro lado, os locais com maiores concentrações de eleitores aptos situam-se nas zonas 15 (Taguatinga, Águas Claras, Arniqueira) e 13 (Samambaia e Água Quente).
População traça prioridades
Para entender também qual é o clima entre a população do Distrito Federal para a campanha eleitoral que se iniciou neste domingo, o Jornal de Brasília foi às ruas conversar com diferentes pessoas para saber o que precisa estar nas agendas dos candidatos até outubro. A maioria dos entrevistados citou que uma das prioridades principais do próximo governo é o cuidado com a saúde pública da capital, seja pela contratação de mais profissionais, ampliação da rede ou melhorias de infraestrutura.
Uma segunda questão bastante frequente nas respostas é como o próximo governo pode resolver o aumento da insegurança no DF. Para muitos, a segurança pública deve ser uma das prioridades na gestão que está por vir, sobretudo a questão das pessoas em situação de rua. A mobilidade urbana também foi muito citada pela população, muitos consideram inaceitável o tempo de deslocamento no trânsito da capital e também cobram por melhores condições do transporte público.
Além dessas, questões como a desigualdade de renda no DF, a melhoria de infraestrutura, a melhoria da educação pública e o custo de vida foram pontos que receberam destaque e, na opinião da população, merecem estar na agenda dos das principais candidaturas. As ações dos candidatos ao governo em sabatinas, debates e entrevistas também já mostram que a tendência é que o cenário das propostas fique justamente no campo apresentado, adicionando a ele, ainda, os desdobramentos do caso BRB/Master e a questão fiscal da capital.




O povo fala
Claudete Martins, 74 anos, moradora de Sobradinho
“Eu acho que a saúde deve ser prioridade porque o que vemos hoje é uma realidade em que não há médicos. Eu mesmo preciso ir para Anápolis fazer exames”
José Antônio, 57 anos, morador da Asa Norte
“A gente tem no DF uma grande precariedade pela falta de distribuição de renda adequada. Acho que essa é a questão principal”
Raquel Alves, 58 anos, moradora do Riacho Fundo II
“Precisa melhorar a segurança pública. Hoje a sensação de insegurança no DF é muito grande, é preciso mais policiamento nas ruas”
Zilda Augusta, 70 anos, moradora do Guará
“Precisamos de políticas para ter empregos com melhores salários porque o povo está para morrer de trabalhar com um ganho horrível”
Santiago Rocha, 25 anos, morador do Riacho Fundo I
“Acho que segurança e infraestrutura são importantes, mas o que mais deixa a desejar hoje é a saúde. Precisam priorizar essa questão”
Com informações do Jornal de Brasília

















