O JBr Entrevista desta semana recebe o ex-governador e candidato ao Palácio do Buriti, pelo PSD, José Roberto Arruda. Ao Jornal de Brasília, Arruda fala sobre o tempo de “exílio político” e de seus planos para retornar ao Executivo local, que disputará, entre outros nomes, com a atual governadora Celina Leão (PP).
Arruda fala ainda de questões como a Operação Caixa de Pandora, o Banco do Brasília, melhorias para a saúde e a ampliação de vias e da malha de transporte público para as regiões administrativa.
Governador, gostaria que o senhor falasse um pouco de sua trajetória política e o retorno.
Eufui senador, deputado, governador. Foram muitos anos fora. O que me faz voltar à vida pública é o sentimento da sociedade de que Brasília nunca esteve num momento tão difícil. As pessoas morrendo em fila de hospital, 40 mil pessoas esperando cirurgia, o cadeirante esses dias morrendo esperando atendimento na UPA, isso na capital do país. E ontem essa notícia que nos envergonha: Brasília, no meu governo, era o primeiro lugar no IDEB Nacional (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) e ontem conseguiu a façanha de ser o 27º, o último lugar entre todos os estados brasileiros no ensino médio. Que vergonha a capital do país, não é possível um trem desse.
Como recuperar o DF nessa situação?
Como se faz para recuperar a cidade, para fazer a saúde funcionar outra vez, para fazer uma educação pública de qualidade, para a gente trabalhar na mobilidade urbana antes que Brasília pare? É isso que a sociedade deseja: recuperar Brasília. Além disso, conseguiram quebrar o BRB, vender a CEB a preço de banana. Olha, Brasília está um desastre. Eu acho que este é um momento de pessoas que têm experiência voltarem ao comando da cidade e botarem a casa em ordem. Eu sei que não será fácil, será um grande desafio, mas eu estou preparado para isso.
O senhor ficou fora da política por mais de 15 anos, por diversos problemas, que segurança o senhor de que chegará até o final dessa corrida?
A lei, a Lei 14.230/21, votada na Câmara e no Senado, sancionada pelo presidente e com parecer favorável do Ministério Público, diz claramente, no parágrafo 8º do artigo 1º, que esses oito anos de inelegibilidade começam a contar na decisão de segundo grau. No meu caso, foi em 2014 e venceu em 2022. Então, a lei finalmente me garante a elegibilidade, e é por isso que sou candidato.
O senhor, na semana passada, anunciou o nome de Luiz Pitiman, ex-deputado federal e ex-secretário. O que o levou até o nome do Pitiman?
Eu recebi várias sugestões partidárias e políticas, mas essa decisão é muito individual de quem vai governar. Eu procurei escolher uma pessoa que reunisse algumas variáveis: experiência na vida pública, foi deputado federal; experiência de gestão foi presidente da Novacap e ex-secretário de Obras; experiência do outro lado do balcão, como líder empresarial bem-sucedido; e uma boa relação pessoal comigo e com todas as lideranças políticas de Brasília, de todos os espectros ideológicos. Porque eu preciso de uma pessoa para me ajudar a governar. O trem está sem freio, a situação é muito ruim. Então, se eu colocar lá uma pessoa que não tem experiência de gestão nem experiência política, não adianta na eleição. Eu creio que o Pitiman tem essas credenciais e, se Deus quiser, vai me ajudar muito a governar.
O senhor atualmente, nas pesquisas mais recentes, está em segundo lugar. O que o senhor tem enxergado na população?
O”Data Rua” é a melhor pesquisa. É abraçar o povo, conversar e ouvir. Primeiro, as pessoas estão muito tristes com o que está acontecendo na saúde pública. Nunca, na história de Brasília, esteve tão ruim. Na época do [Joaquin] Roriz, do [Jofran] Frejat e do meu governo, chegava-se ao posto de saúde e tinha o ginecologista, o pediatra, o clínico geral, não tinha fila de cirurgia. As pessoas eram bem atendidas, tinha médico. Virou bagunça. Estava uma zona. Vou botar ordem nessa casa. Esses gestores viraram uma desgraça. Então vai ter que meter um freio de arrumação, demitir muita gente, e eu vou fazê-lo. Botar na rua mesmo.
Como se dará isso?
Quem não é concursado, quem não é da saúde, desculpa: acabou esse negócio de politicagem dentro da saúde e dentro da educação. Não tem esse negócio, não. É gestão, colocar médicos e enfermeiros concursados. É isso que precisa. E fazer uma gestão séria. O boi engorda com o olho do dono. Eu sei comandar, sei fazer gestão. Não será fácil, mas eu vou botar ordem na casa.
Como o senhor avalia a situação do BRB?
O “Data Rua” me diz isso: que as pessoas estão muito tristes com o governo Ibaneis e Celina. Inacreditável o que fizeram com o BRB, inacreditável! O banco público, quebrado, comprou R$ 16 bilhões de títulos podres. Sabe o que é isso? De um papel que não existia. E o pior: não publicam balanço há nove meses. Sabe a sensação que dá? Que o governo está empurrando com a barriga. Agora o banco pediu ao Banco Central para só publicar o balanço depois das eleições. É uma forma de dizer o seguinte: “Gente, deixa passar a eleição primeiro, depois o banco quebra.” Isso é uma irresponsabilidade.
E o que o senhor sente ao conversar nas ruas?
Eu sinto nas ruas que as pessoas desejam mudança. Há vários outros candidatos, claro, cada um com sua proposta; eu sou apenas mais um que oferece, de um lado, a minha experiência como engenheiro por muitos anos, secretário de Obras do Roriz, senador, deputado e governador, para colocar Brasília em ordem. E ofereço também um projeto de governo muito bem elaborado, a várias mãos, mostrando o que vamos fazer na saúde, na educação e na mobilidade. Vamos construir quatro novas linhas de metrô, fazer a Interbairros e o anel rodoviário. Quer dizer: levar Brasília para a frente. Vocês se lembram, no meu governo, Brasília tinha desenvolvimento. Isso gerava dinheiro na praça, o comércio faturava. Hoje em dia, a cidade está para baixo. Você pega aquela Avenida Comercial e está quase tudo quebrado, um monte de loja fechada. Infelizmente, Brasília vive um péssimo momento.
O senhor pensou em se retirar da vida pública?
Se Brasília estivesse bem, na fase da vida em que estou, talvez não se justificasse a minha volta. O apelo das lideranças políticas e comunitárias pela minha volta foi algo a que não consegui resistir, porque as coisas estão muito mal e precisam de um gestor, de alguém que conheça a máquina pública, que tenha disposição — e eu tenho — de ouvir as pessoas e de participar. Não é chegar a uma inauguração do Areal cercado de segurança, de helicóptero, e ir embora, não. É andar sozinho pela rua como eu ando. Você me viu entrar aqui hoje, conversar com o porteiro, não foi isso? Ouvir o que cada um está pensando.
O que o senhor faria para salvar o BRB?
Éleviano dizer a solução definitiva sem conhecer o balanço, pois estão escondendo o balanço. Em tese, a solução que me parece viável é, primeiro, fechar as 19 agências do banco fora de Brasília. Segundo: acabar com patrocínio de time de futebol, de prêmio de Fórmula 1, de sala VIP para a granfinagem. Acabar com esse trem todo, reduzir o tamanho do banco para ele voltar a ser de Brasília e do Entorno, e negociar com o Governo Federal — o que me parece fundamental — para trazer os 15 bilhões do FCO para serem aplicados no BRB e, com isso, gerar fluxo de dinheiro. O banco hoje é muito pequeno para ser grande e muito grande para ser pequeno.
O que o senhor faria com os servidores?
O BRB tem mais de 5 mil funcionários; está na hora de fazer um PDV (Plano de Demissão Voluntária) para aqueles mais antigos que desejem antecipar a aposentadoria. Eu penso muito nos servidores do BRB: esse povo não está dormindo hoje. Se o banco quebrar, for privatizado ou sofrer uma intervenção, vai acabar com a vida de 5 mil profissionais sérios que prestaram concurso, dedicaram suas vidas ao banco e estão pagando o pato por uma culpa que não é deles. Então, farei tudo para salvar o BRB como banco público de fomento, mas para isso tem que cortar o tamanho do banco, diminuir despesas e torná-lo mais eficiente. É possível fazer isso, mas obviamente temos que aguardar o balanço.
Antes mesmo de confirmar a sua candidatura, seus adversários apontaram seu passado em relação à Operação Caixa de Pandora. O que o senhor diz sobre isso?
Olha, o que eu vivi 16 anos atrás foi uma tremenda armação. Finalmente, depois de tantos anos sendo humilhado, o Ministério Público, o órgão acusador, pediu a nulidade da prova e fui absolvido. O que mais eu preciso fazer? Do que me acusaram? De receber R$ 20 mil dois anos antes de ser governador, verba declarada e não de propina. Parceiro, isso aí perto desse roubo de R$ 16 bilhões do BRB seria Juizado de Pequenas Causas. A governadora agora, recentemente, comprou uma vaca de 500 mil reais num leilão, junto com quem? Com o dono da empresa de ônibus que ganha R$ 200 milhões de subsídio por ano. Gente, vocês se lembram que o Roriz caiu por causa da “bezerra de ouro”? Agora é a “vaca de ouro”, e ninguém fala nada? Só eu tenho problemas? Agora, esse pessoal tenta me segurar no tapetão. Sabe por que falta de voto? Porque o vice da governadora é um advogado que não tem um voto, nunca foi à Ceilândia, é desconhecido, mas diz que tem influência no Judiciário. Ele se gaba disso de forma até muito arrogante. Será que esse caboclo foi colocado lá como vice para segurar o processo da Saúde, em que a Celina é acusada de desviar R$ 30 milhões? Ou a “vaca de ouro”? O que será mais? Eu espero que ela tenha o mesmo êxito que eu tive em mostrar a lisura dos meus procedimentos. Tenho vida limpa, fui vasculhado de cabeça para baixo. Estou aqui, limpo.
O senhor sempre fala das 2.300 obras do seu governo. Depois de tantas obras feitas, também, no governo Ibaneis ainda acha que precisa de mais?
Acho que tem muita coisa para ser feita. O primeiro governo do Ibaneis até foi bem razoável. Quando ele colocou a Celina é que piorou. Ele fez viadutos. O que é um viaduto? É a menor distância entre dois engarrafamentos quando não há planejamento. Esse viaduto do Sudoeste está há quatro anos em obra. Eles estão demorando mais para fazer o viaduto do Sudoeste do que o Juscelino demorou para construir Brasília inteira. É um governo sem planejamento, não sabe fazer e fica tudo muito caro. Brasília tem 3 milhões de habitantes e 2 milhões e 200 mil automóveis. Tem mais carro do que rua; vai parar. Primeiro, precisa fazer as novas linhas de metrô: pegar o metrô na Ceilândia, levar a Sol Nascente até Águas Lindas; fazer o metrô do Gama e Santa Maria e levar para o Novo Gama, Valparaíso, Jardim Ingá e Luziânia; fazer a quarta ponte; subir com o BRT para pegar Jardim Botânico, Mangueiral, São Sebastião, Itapoã e Paranoá; fazer o BRT Norte e o VLT do Aeroporto à Asa Norte. São obras fundamentais para um sistema de mobilidade integrado. Depois, fazer a Interbairros, cujo projeto eu deixei pronto e contratei do Jaime Lerner.
O que é a Interbairros?
Sabe aquela linha de transmissão grandona que sai lá de Samambaia, passa perto da Católica, divide Arniqueiras de Águas Claras, Guará e vai até o Plano Piloto? Vamos aterrar aquela linha e fazer uma nova EPTG, com sete pistas de cada lado, igual eu fiz na EPTG, para dar fluidez ao trânsito.
E sobre o projeto do anel rodoviário?
Toda cidade grande tem o seu rodoanel; ele é fundamental. Se você pega um caminhão que vem do Nordeste para o Sul, ou do Sul para o Nordeste, ele passa na EPIA, no centro de Brasília. Ele poderia pegar por fora, sair por trás de Planaltina e ir para Formosa. Mas não, ele passa aqui por dentro. Isso complica demais o trânsito urbano e encarece o transporte de carga. Toda cidade grande precisa de um rodoanel, e nós vamos fazê-lo em Brasília. São obras pensadas e planejadas para um futuro melhor para a cidade. Não é fazer um remendinho aqui e outro ali. É disso que Brasília precisa.
Os Executivos pelo país vêm sofrendo com os Legislativos. Como o senhor pretende lidar com esse novo cenário?
Primeiro, fechando o “departamento de emendas”. Com essas emendas aí, não há governo que preste. Esses dias fui a uma exposição de carros antigos em Planaltina. Cada proprietário levou seu carro, era uma exposição livre, com as pessoas participando no domingo de manhã, muito agradável. Tinha um showzinho para alegrar o ambiente e carrinhos de cachorro-quente. Fiquei sabendo que tinha uma emenda de um parlamentar de R$ 1 milhão para aquilo lá. Gente, é uma vergonha. O dinheiro de emenda está servindo para objetivos escusos. No meu governo, a emenda era para construir uma escola, um hospital, uma estrada, e o deputado tinha todo o crédito. Eu não vou permitir que o governo fique refém de emendas, dessas festas e confusões — sabe-se lá para onde vai esse dinheiro. Comigo não. Do jeito que está virou bagunça.
E como resolver essa questão?
Observe como se faz com o orçamento: Brasília tem 3 milhões de habitantes e um orçamento de R$ 75 bilhões. Goiás, aqui do lado, tem 7 milhões de habitantes (mais do que o dobro da gente) e uma área 60 vezes maior, mas tem a metade do nosso orçamento: R$ 50 bilhões. Como é que o Caiado, com menos dinheiro e mais gente, colocou ordem na segurança pública, fez hospitais e estradas? Sabe por quê? Porque não tem departamento de emendas, não tem sacanagem, não tem roubalheira. É isso. Se o Brasil continuar sendo administrado por essas emendas secretas e espúrias com dinheiro do contribuinte, a democracia será rompida. Eu já sofri muito, já paguei o pato por uma armação que fizeram comigo. No meu governo não vai ter sacanagem; eu não quero terminar minha vida pública assim. Ou vai fazer direito, ou nem assumo, porque não vou deixar o meu governo ter esse departamento de emendas revoltante. Fazer show de não sei quem, exposição de não sei das quantas. Dinheiro público é para ser aplicado na educação, na saúde, na segurança e para sobrar dinheiro para investimentos.
Como o senhor vê a economia do DF?
Hoje, Brasília é deficitária. Sabe o que é o governo de Brasília hoje? É um elefante, igual àquele do zoológico: grandão, custa caro, come muito e é lerdo. Se você mexer no rabo dele, demora uma semana para ele levantar a tromba. O governo é ineficiente e atende mal os cidadãos, mas tem cargos espalhados. Tem administração regional que tem 104 funcionários: dois concursados e 102 indicados por deputado da região. Pode um trem desse? Tudo cabo eleitoral. Eu não aceito uma coisa como essa em região administrativa.
Em uma época de polarização, como o senhor pretende conversar com um possível presidente de uma ideologia diferente da sua?
Eu não entro nessa, não. Política é a arte do diálogo. Você tem as suas opiniões, os outros têm as deles, mas isso não impede de conversar e trocar ideias. Eu era governador com o Lula presidente, qual o problema? Ele me deu dinheiro para fazer o metrô da Ceilândia e inaugurou comigo, ele me deu dinheiro para fazer a EPIA. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Ele administra o Brasil de um jeito que eu não faria; acho que é um governo que complica a economia do Brasil, que gasta mais do que arrecada. Essa é a minha crítica ideológica e de gestão. Outra coisa é a convivência civilizada. O governador de Brasília é o hospedeiro dos Poderes da República. A nossa primeira obrigação é ter uma relação respeitosa com o Poder Executivo, com o Poder Legislativo e com o Poder Judiciário. Agora, eu, governador de Brasília, não vou ao 7 de Setembro porque não piso no mesmo chão em que o presidente está? Quem paga o pato é a população. Na hora em que precisou do governo federal para salvar o BRB, não teve. Simples assim. Qualquer que seja o presidente da República, eu, como governador, procurarei ter com ele a melhor relação possível, respeitosa, em benefício da população de Brasília.
Se a carreira do senhor não tivesse sido pausada por tanto tempo, onde o senhor gostaria de ter chegado na política?
A vida não tem “se”. Eu digo o seguinte: o Zico foi um dos maiores jogadores da história do futebol brasileiro depois do Pelé. Maior artilheiro do Maracanã, 360 gols, mas não foi campeão do mundo. Se você for fizer um documentário sobre a vida do Zico, seria justo mostrar apenas o pênalti que ele perdeu na Copa de 1986? Eu perdi um pênalti, mas quero ser lembrado pelas obras que fiz: pelas mil salas de aula que fiz em mil dias de governo, pelas vilas olímpicas que construí, pelas duzentas escolas de educação integral, pelos hospitais, pelas obras do sistema viário, por tudo o que fiz para Brasília. Eu sou engenheiro; tudo o que fiz, devo a esta cidade.
E o que o senhor deseja?
Eu desejo, já nesta fase da minha vida, devolver a Brasília o melhor governo possível, sem outro tipo de ambição. Posso ser honesto? Falam muita coisa: “Ah, se não tivesse sido derrubado, poderia ter sido presidente”, isso e aquilo. Eu acho que Deus tem um propósito na vida da gente. Primeiro, eu já me perdoei. Foi duro, rapaz. Eu apanhei demais, sofri demais, fui muito humilhado. Essa é uma das razões de ser candidato outra vez: poder participar de uma entrevista como essa e dar a minha versão das coisas. Porque esse tempo todo eu apanhei quieto. Já falaram tudo e ninguém me ouvia. Pelo menos agora eu posso falar.
O senhor tem um último recado.
Muito obrigado a todos vocês que nos assistiram, fiquei muito feliz com essa oportunidade. Nos acompanhem nas redes sociais: @arruda.df. Vamos discutir propostas para melhorar a vida em Brasília. Muito obrigado.
Com informações do Jornal de Brasília

















