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DF registra 492 órfãos do feminicídio desde 2015; 80% das vítimas eram mães 

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Por Maria Paula Valtudes

Entre 2015 e o primeiro semestre de 2026, 248 mulheres foram vítimas de feminicídio no Distrito Federal e mais de 80% delas eram mães, como mostram dados do painel de monitoramento de feminicídios da Secretaria de Segurança Pública do DF.

No total, 492 crianças, jovens e adultos se tornaram órfãos do feminicídio.

“Não tem como você ter uma rotina. Minha rotina é chorar de manhã, tentar parar de chorar à tarde e chorar de noite. Essa tem sido minha rotina há cerca de 4 anos”, lamenta Robertha Ribeiro. 

Robertha tinha 20 anos no ano em que a mãe, Rozane Ribeiro, foi assassinada pelo parceiro. Agora, aos 25 anos, a jovem confessa que as lembranças da mãe trazem um sofrimento diário. “A gente tenta voltar à vida normal, mas a vida normal nunca volta para a gente, sabe?”

Tudo aconteceu no dia 12 de dezembro de 2022. Faltavam exatos três dias para Robertha completar seus 21 anos. Ela, que estuda medicina na Argentina, naquele ano havia retornado ao Brasil para surpreender a mãe no feriado. 

Ao chegar em casa, a jovem lembra do susto e da felicidade de Rozane ao vê-la. “Foi talvez a memória mais legal que eu tive na vida.”

O namorado de Rozane também estava lá quando Robertha chegou em casa, e como ela recorda, a presença dele lhe causou desconforto.

“Ele estava lá e eu não me senti muito confortável naquele momento, então resolvi dormir na casa da minha tia nesse dia.”

Por volta da 1h10 da manhã, Robertha recebeu uma ligação desesperada do irmão mais novo, Gabriel, que tinha 12 anos. Rozane havia sido esfaqueada pelo parceiro. 

“Quando eu cheguei, a minha mãe já estava deitada no chão. O Samu ainda não tinha chegado. Ele demorou bastante para chegar. E a polícia estava lá também”, relembra. 

“Sinto falta de ser amada pela minha mãe.” / Foto: Arquivo Pessoal

O processo de reanimação de Rozane durou por volta de 40 minutos após a chegada dos socorristas, porém ela não resistiu. 

“O assassino fugiu do local do crime, roubou os pertences dela, roubou dinheiro meu, dinheiro que estava na casa, e foi para o Rio de Janeiro ônibus. Lá, ele foi preso”, detalha a filha. 

Distrito Federal 

O caso de Rozane não é isolado. No Brasil, dados do Fórum de Segurança Pública de 2026 mostraram que entre 2021 e 2025 cerca de 7.327 mulheres foram vítimas de feminicídio no país.  

Quanto ao Distrito Federal, o painel de Câmara Técnica de Monitoramento de Homicídios e Feminicídios (CTMHF) da Secretaria de Segurança Pública indicou que entre os meses de janeiro e julho de 2026 houveram 13 feminicídios consumados, já o mais recente relatório de junho revelou que houve 44 feminicídios tentados. Números alarmantes para as mulheres, que compõem mais da metade da população brasiliense.  

“Ápice da violência”

O detegado Marcelo Zago, coordenador da Câmara Técnica de Monitoramento de Homicídios e Feminicídios (CTMHF) da Secretaria de Segurança Pública, explica que um dos principais desafios dos profissionais que estudam este fenômeno tem sido entender o padrão que leva ao cometimento deste crime. 

“Geralmente, o feminicídio é o ápice de uma história de violência. E o padrão do feminicídio é completamente diferente do padrão do homicídio. Então, entender a complexidade desse fenômeno e como a violência doméstica gera esse final trágico, é difícil.”

Em relação ao namorado da mãe, Robertha diz ele nunca ter demonstrado comportamentos que acendessem um alerta de perigo. O mesmo já não pôde ser dito para Vanessa Lopes, mãe de Arthur Leandro, de 20 anos, que também foi vitimada pelo namorado. 

“Eles tinham algumas brigas, e em uma delas ele inclusive quebrou o celular da minha mãe. Aquelas bandeiras vermelhas já estavam indicando a agressão verbal e material. Então ele já vinha apresentando esses comportamentos”, relata. 

Vanessa vivia na Ceilândia junto do filho e do namorado, com quem havia começado a se relacionar há pouco tempo.

Arthur estava sozinho em casa quando os policiais bateram em sua porta na manhã do dia 3 de outubro de 2022. Sua mãe, lembra, havia saído na noite anterior para comprar comida, mas ele, na época com seus 16 anos, nem havia tido tempo de perceber que ela não havia retornado. 

A princípio, pediram a identificação do jovem, depois começaram a realizar uma vistoria na casa. Não encontraram nada lá. 

Conforme relata, estava confuso com a situação inesperada. Ele os seguiu até a viatura onde os oficiais o dirigiram próximo de um bar. Até então não sabia, mas lá fora o último local onde Vanessa havia sido vista com vida. 

Ainda dentro da viatura foi quando ele ouviu os agentes de polícia murmurarem sobre um assasinato. Finalmente, a ficha caiu. “O policial me contou no carro, na frente do bar. Eu gritei no quando ele me falou. Nem conseguia chorar porque eu estava em choque. Não sabia o que fazer”.

“Foi o pior momento da minha vida.”

“Hoje em dia, só sou o homem que eu sou por conta dela.” / Foto: Arquivo Pessoal

Luto diário

O luto pelas mulheres que se foram se faz diário na vida dos familiares das vítimas, uma fratura permanente que nem a passagem do tempo, ou a condenação criminal, é capaz de curar. “Nem 1 milhão de anos de cadeia é capaz de recuperar a minha mãe”, constata Robertha.   

“Ele pegou 28 anos [de cadeia], que para mim ainda é pouco. Porque ele tirou a vida da minha mãe. A mulher mais importante para mim. E não são 28 anos [de cadeia] que pagam isso”, diz Arthur.

A perda da mãe abalou as principais estruturas familiares na vida do jovem. A avó materna de Arthur, com a morte da filha, passou a sofrer de depressão e até hoje, quase 4 anos após o ocorrido, a tristeza persiste. “Foi um estrago enorme na nossa família.”

Os tios e a avó de Robertha também ficaram devastados com a notícia da tragédia. “Eram quatro irmãos e eles eram a vida um do outro. E a minha avó tinha acabado de se tornar viúva e perdeu a filha. Foi a coisa mais difícil que passamos na vida.”

Vítimas Indiretas 

Psicóloga da Secretaria de Justiça, Sarah Mello, que atua no núcleo de atendimento do programa Direitos Delas, explica que o luto do feminicídio é bastante complexo, ainda mais quando se trata de crianças.  

“Muitas vezes a criança está em uma fase em que ela não entende que a morte é irreversível, e explicar isso, seja nós, os psicólogos, ou os parentes é complexo.”

A especialista também afirma que a morte da mãe,  quando causada pelo pai, traz ainda mais angústia emocional para o indivíduo.

“Além de perderem suas figuras de proteção, eles também perdem uma base de identidade.”

“Mãe é colo. Quando dá tudo errado na sua vida, você consegue voltar para o colo da sua mãe. Quando tiram esse colo de você, você se sente sozinho no mundo”, diz Robertha.

Ilustração: Júlia Gottgtroy

Impactos psicológicos

Além dos filhos das vítimas, os parentes e pessoas próximas também vivenciam os impactos psicológicos do feminicídio. “Há quem desenvolva casos depressivos, de ansiedade ou outros”.

Mariele Silva, de 59 anos, lida desde 2021 com o luto duplo pela morte da nora, Leidenaura Moreira, e pela prisão do filho, responsável pelo crime e admite ser muito difícil conversar sobre o ocorrido. 

Atualmente, Mariele possui a guarda da neta, Inara Gabrielly de 10 anos, e informa que as sessões de assistência psicossocial foram extremamente importantes tanto para ela quanto para a menina, que participa de competições de ginástica acrobática. 

Na avaliação de Sarah, juntamente com o acompanhamento assistencial,  garantir os direitos das pessoas, como ir à escola, são atividades que trazem um resultado positivo para os jovens que passam pelo luto materno. 

Sarah reforça que o trabalho dela e dos outros profissionais da área de assistência social da Secretaria de Justiça tem como objetivos trabalhar com “a prevenção da violência”. 

Machismo estrutural

Assim, com as crianças e jovens que chegam para as sessões, os profissionais abordam tópicos que destrincham o machismo, os sentimentos de possessividade em relacionamentos e os tabus sociais – como o de que “homens não podem ser sentimentais”.  

Para Arthur Leandro, conversar com outra pessoa sobre o que ele havia passado era um grande desafio, porém a terapia, pouco a pouco, o ajudou a se destravar do trauma. 

“Foi meio difícil eu me abrir para as primeiras idas, mas depois eu consegui me abrir e conversar. O acompanhamento foi excelente. A moça que me assistiu era super educada e ela tentava realmente entender a situação. Ela tinha uma empatia enorme com a gente.”

Robertha também recebeu o auxílio de terapia do governo durante um ano até haver a troca do sistema.

No programa vigente, o beneficiário tem direito a seis sessões semanais que então são alongadas para encontros trimestrais até, por fim, se fixarem em terapias anuais.  “Eu não acho que isso seja o suficiente”, diz ela.

Em relação a isso, Sarah detalha que o atendimento oferecido pela Secretaria de Justiça, infelizmente, não tem o papel de ação contínua mas momentânea. Dentre as razões que justificam isso estão a alta demanda de atendimentos e capacidade limitada de profissionais.  

Ainda sim, a psicóloga concorda que, idealmente, deveriam de ser consultas psicológicas regulares.  

Políticas Públicas

Além do sofrimento psíquico, a lacuna financeira deixada pela falta da mãe, que em certos casos é a principal provedora, também trouxe receios para ambos, Arthur Leandro e Robertha. 

Vanessa sustentava a casa com o trabalho de diarista e sem ela, Arthur, então menor de idade, se encontrava em uma situação de vulnerabilidade econômica. Foi através da tia que ele então descobriu sobre o programa Acolher Eles e Elas. “Descobrimos pela TV sobre esse programa e corremos atrás dele.”

O DF foi a unidade federativa pioneira na elaboração de um programa exclusivo de amparo financeiro e psicossocial à órfãos do feminicídio no país: o Acolher Eles e Elas. 

Desde a criação em dezembro de 2023, a política pública já recebeu mais de 3 milhões de reais em investimentos e acolheu 219 crianças, adolescentes e jovens. Atualmente, possui 196 cadastros ativos e beneficiados pelo auxílio financeiro. 

A política pública, juntamente com o apoio de familiares, garantiu a Arthur a estabilidade necessária para construir a própria casa no terreno herdado da mãe. “Graças a essa esse benefício, eu consigo conseguir suprir essa necessidade que eu tinha, não só financeira, mas também pelo acompanhamento psicológico, porque esse foi um trauma gigantesco.”

Robertha, por outro lado, não teve o mesmo auxílio. Como é previsto na regulamentação do próprio Acolher Eles e Elas, a idade máxima para que um órfão possa ser beneficiado pelo programa é de 21 anos e 11 meses. 

Na época, Robertha, mesmo tendo completado 21 anos apenas 3 dias após o assasssinato da mãe, não pode se qualificar para assistência. 

“Não recebi nenhum auxílio, porque eu fiz 21 anos, três dias depois que minha mãe foi assassinada brutalmente. Então eu, aos olhos do governo, não tinha direito de receber uma pensão, já que sou maior de idade.”

Memórias

O que resta para aqueles que ficam são as lembranças dos instantes que compartilharam com a mulher amada e os últimos momentos de carinho.

“Não tem um momento que eu não lembre do sorriso e do jeito dela. Ela era uma mulher extremamente viva, o brilho dela iluminava o ambiente. Ela tinha um coração gigante. Mas, acima de tudo, ela sempre foi uma ótima mãe“, diz Arthur. 

Ele se recorda da última conversa com a mãe. Foi na noite anterior à chegada dos policiais.  

Arthur estava se preparando para tomar banho quando Vanessa bateu na porta do banheiro com a típica insistência, lhe pediu um abraço e disse que ele iria acompanhá-la para comprar algo de comer. “Eu só ia tomar banho, mas sabe aquela coisa de mãe, né? Você fala que vai, mas quando sai do banheiro ela já foi embora.”

O abraço foi breve, entre a porta do banheiro, algo que hoje ele carrega com um pesar. 

“Um dos meus maiores arrependimentos foi não ter abraçado ela direito.”

Para Robertha as lembranças com mãe são algo que machucam muito, um passado sensível que por vezes se recusa deixar ser esquecido. “Eu tento lutar contra as lembranças da minha mãe há uns 4 anos porque pensar nisso machuca muito”, diz emocionada. 

Ainda sim, ela conta sobre como sente falta dos momentos de descontração e brincadeiras entre as duas.”Gostava de fazer cosquinha na minha mãe. Ela odiava cada segundo e falava que ia me colocar de castigo e tentava disfarçar o riso dela fechando a boca e colocando a mão no rosto para ficar séria comigo.”

“É muito bom ter uma mãe que te ama. E a minha me amava muito. Agora ela deixou a gente e é muito difícil de viver sem ela.”

A cada ano que passa, mais histórias como a de Robertha e Arthur Leandro surgem no Distrito Federal. A cada dia, mais mulheres são vitimadas pela violência. E cada vez mais, menos se fala das vítimas indiretas do feminicídio. 

Para denúncias ou demais informações: 

  • Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180
  • Programa Direito Delas – (61) 98382-0130
  • Programa Acolher Eles e Elas – (61) 98312-0763

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

Com informações do Jornal de Brasília

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