Baltazar e Leôncio levavam uma vida modesta até descobrirem que tinham nacionalidade, fama e participação involuntária numa discussão familiar
Baltazar estava no quarto dia de sua vida quando recebeu a pior notícia que um piolho pode receber. “Leôncio, disseram que somos portugueses”, contou atônito ao seu irmão, enquanto ele mastigava um pequeno pedaço de pele descamada, especialidade da casa. “Portugueses?”, perguntou incrédulo sem nem saber o que isso significa. “E desde quando piolho tem nacionalidade?”, questionou. Até aquela manhã, a maior preocupação era não ser esmagado por uma unha. O projeto de vida era simples: nascer, encontrar cabelo, sugar sangue e evitar o pente fino. Não havia universidade, previdência ou plano de carreira.
Piolho não pensa em aposentadoria. A vida era curta demais para isso. Os dois moravam havia alguns dias naquela cabeça quando perceberam que tinham virado assunto. Havia gente falando deles. Fotografaram seus parentes. Discutiram sua origem.
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Pedro Scooby e Luana PiovaniFoto: Reprodução/Instagram @pedroscooby

Luana Piovani expõe print de conversa com Cíntia Dicker sobre piolho em filhaFoto: Reprodução/Instagram @luapio

Pedro Scooby resgatou notícias antigas para rebater a ex-esposa, Luana PiovaniCrédito: Reprodução/Instagram @pedroscooby
Alguém dizia que tinham vindo de Portugal. Outro dizia que já estavam no Brasil. Apareceram até registros antigos de outros piolhos que haviam sido vistos anos antes em território português.
Leôncio ficou indignado. “Estão usando nossos antepassados numa discussão de família”, refletiu. Baltazar coçou a cabeça… “Isso é ruim?”, perguntou. “Depende. Eles eram bons piolhos?”, devolveu o imão. “Não sei.” “Então não temos advogado.”
A situação piorou quando descobriram que havia milhares de pessoas acompanhando a história. Baltazar ficou vaidoso: “Estamos famosos.” Leôncio tentou manter a dignidade: “Famoso por quê?” “Por sermos piolhos”, ponderou sua crise existencial sem se situar do próprio significado.
“Isso é profissão?”, Baltazar pensou. “Para nós, sim”, constatou Leôncio. Era verdade. Nenhum dos dois tinha feito esforço algum para alcançar a fama. Não dançaram. Não cantaram. Não deram entrevista. Não tinham empresário. Tinham apenas nascido. E isso, aparentemente, já era suficiente.
Naquela noite, Baltazar reuniu a família: “Precisamos decidir nossa posição.” “Sobre o quê?”, perguntou uma prima. “Portugal.” “Você é português?” “Não sei.” “Então por que está discutindo?” Baltazar ficou ofendido: “Porque estão discutindo por nós.”
A prima achou aquilo muito sofisticado para uma criatura que passava o dia agarrada a fios de cabelo. Leôncio, enquanto isso, tinha outra preocupação: “Se descobrirem que somos brasileiros, nossa carreira acaba?” Ninguém respondeu.
Do lado de fora, os humanos continuavam discutindo. Havia acusações, respostas, vídeos, explicações e versões. Os piolhos ouviam tudo em silêncio.
Baltazar finalmente fez uma pergunta: “Mas alguém sabe o que a gente fez?” Leôncio olhou para ele: “Não.” “Então por que estão tão interessados?”
Leôncio pensou por alguns segundos: “Talvez porque a vida dos outros seja mais interessante quando não é a nossa.” Baltazar ficou impressionado: “Você ficou inteligente.” “Não. Só estou com fome.”
Na manhã seguinte, o destino dos dois mudou novamente. Um pente apareceu. Baltazar correu. Leôncio também. Enquanto os humanos discutiam nacionalidade, responsabilidade e internet, os dois enfrentavam uma questão muito mais urgente: a sobrevivência.
Baltazar conseguiu escapar. Leôncio não. Antes de desaparecer entre os dentes do pente, ainda teve tempo de gritar: “Se perguntarem, sou português!”
Baltazar observou o irmão partir. Ficou sozinho. Famoso. Apátrida. E com uma certeza bastante desconfortável para alguém que vive apenas alguns dias de que a humanidade havia transformado um piolho numa questão de família. E o piolho, que não entendia nada de família, continuava tentando não morrer.






















