Search

Airbnb movimenta mais de R$1 bilhão em Brasília e acirra disputa com hotéis

Thamires-Pinheiro_Jornal-de-Brasilia-.jpg.jpeg

Por Thamires Pinheiro

Brasília recebeu em 2025 um fluxo de visitantes que ajudou a movimentar diferentes setores da economia. Entre hospedagens, restaurantes, transporte, comércio e serviços, a atividade do Airbnb movimentou mais de R$1,6 bilhão na capital federal, segundo atualização de estudo da Fundação Getúlio Vargas encomendada pela plataforma. O valor representa crescimento de mais de 27% em relação ao ano anterior.

O impacto estimado não fica restrito ao valor pago pelas hospedagens. De acordo com o levantamento, a atividade sustentou mais de 10 mil postos de trabalho em Brasília, gerou mais de R$442 milhões em renda e contribuiu com mais de R$892 milhões para o Produto Interno Bruto do Distrito Federal. A estimativa de tributos chega a quase R$139 milhões.

Os números colocam o aluguel por temporada em uma posição cada vez mais relevante na cadeia turística do DF, mas também mostra uma disputa que já é percebida pelo setor hoteleiro. Para a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Distrito Federal, a expansão das plataformas aumentou a oferta de hospedagem e colocou imóveis anunciados por diária para concorrer direto com hotéis.

De viagens de trabalho a grandes eventos

Brasília tem um perfil particular de turismo. A cidade recebe visitantes durante todo o ano para compromissos profissionais, concursos públicos, tratamentos de saúde, congressos, eventos culturais e viagens em família. Em períodos de maior movimentação, a chegada desses visitantes movimenta além da hospedagem, mas restaurantes, bares, transporte, comércio e serviços.

É justamente essa circulação que aparece na metodologia utilizada pela FGV. O estudo considera os efeitos diretos e indiretos dos gastos de hóspedes e anfitriões e estima como esses recursos circulam por diferentes setores da economia. No Brasil, a atividade movimentou mais de R$113 bilhões em 2025, contribuiu com quase R$63 bilhões para o PIB e sustentou mais de 700 mil postos de trabalho.

Em Brasília, parte desse movimento chega aos pequenos negócios. Restaurantes, mercados, motoristas, profissionais de limpeza e manutenção e outros prestadores de serviço estão entre os segmentos beneficiados pela circulação de visitantes.

“Brasília recebe visitantes durante todo o ano e por motivos bastante diversos, dos compromissos profissionais aos grandes eventos, passando por viagens em família e tratamentos médicos. O Airbnb ajuda a atender essa demanda e faz com que os benefícios das viagens fortaleçam a economia local e alcancem diferentes regiões da capital”, afirma Fiamma Zarife, diretora geral do Airbnb para a América do Sul.

Hotéis veem concorrência mais próxima

Para a hotelaria, entretanto, o crescimento do modelo também traz uma questão sobre equilíbrio de mercado. O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Distrito Federal, Henrique Severien, afirma que o setor acompanha a expansão das plataformas com atenção.

Segundo ele, o aluguel por temporada mudou de perfil. O que antes estava mais associado ao uso eventual de uma residência passou a incluir imóveis preparados especificamente para receber hóspedes e anunciados de forma recorrente durante todo o ano.

“O próprio estudo da FGV, ao estimar uma movimentação de R$1,6 bilhão na economia de Brasília em 2025 associada à atividade do Airbnb, dá uma dimensão da relevância que esse mercado adquiriu. É importante observar que esse valor representa uma estimativa de impacto econômico mais amplo e não receita de hospedagem”, afirma.

Henrique reconhece que a presença de mais opções pode ser positiva para o turismo, mas destaca que parte dessa oferta passou a disputar a mesma demanda dos hotéis.

“Existe impacto, porque houve um aumento significativo da oferta e naturalmente, essa oferta disputa demanda com a hotelaria”, diz.

Na avaliação dele, não é possível atribuir exclusivamente às plataformas eventuais oscilações na ocupação dos hotéis, já que o desempenho do setor também depende de viagens corporativas, calendário político, congressos, eventos e sazonalidade.

Produtos cada vez mais parecidos

screenshot

A concorrência, segundo a entidade, ficou mais evidente à medida que as unidades oferecidas pelas plataformas passaram a apresentar características semelhantes às encontradas na hotelaria.

“Hoje existe concorrência direta em uma parcela importante do mercado. Os produtos se tornaram muito semelhantes”, afirma Henrique.

Ele cita apartamentos equipados com enxoval, televisão, internet, frigobar e utensílios, muitas vezes preparados para receber hóspedes durante todo o ano. Em alguns empreendimentos de Brasília, segundo o presidente da ABIH DF, unidades administradas por empresas hoteleiras coexistem com imóveis de investidores individuais anunciados em plataformas.

Para a associação, a discussão não está na existência do Airbnb, mas nas diferentes regras que incidem sobre os modelos de hospedagem.

Henrique cita diferenças tributárias e obrigações relacionadas à acessibilidade, segurança contra incêndio, normas sanitárias, defesa do consumidor e relações trabalhistas. Na visão dele, essas exigências precisam entrar no debate quando um imóvel residencial passa a ser explorado de maneira habitual como hospedagem.

“Uma coisa é alguém disponibilizar eventualmente sua residência ou um imóvel por determinado período. Outra é adquirir uma ou várias unidades, prepará-las para hospedagem, mantê-las disponíveis durante todo o ano e comercializá-las sucessivamente por diária. Nesse segundo caso, estamos falando de uma exploração econômica habitual que, na prática, se aproxima muito da atividade hoteleira”, afirma.

Setor vê turismo como oportunidade para toda a cidade

Apesar da preocupação com a concorrência, o setor hoteleiro reconhece que o crescimento do turismo pode beneficiar diferentes modelos de hospedagem e toda a cadeia econômica.

Valéria Farias, diretora de hotelaria do Sindhobar, afirma que o aumento da circulação de visitantes é positivo para Brasília quando se transforma em consumo e geração de oportunidades.

“Quando temos mais pessoas na cidade, há impacto não apenas na hospedagem, mas também em restaurantes, bares, transporte, comércio, atrativos turísticos, eventos e serviços”, afirma.

Para ela, os grandes eventos têm papel importante nesse movimento. Congressos, feiras, shows e eventos culturais e esportivos costumam levar visitantes a permanecerem alguns dias na capital e consumir diferentes serviços.

“Além de discutir apenas onde o visitante se hospeda, precisamos olhar para o impacto que esse visitante deixa na cidade e para a capacidade de Brasília de transformar esse fluxo em desenvolvimento econômico, geração de empregos e fortalecimento do turismo”, diz Valéria.

O estudo da FGV, por sua vez, mostra que a movimentação gerada pela plataforma cresceu em Brasília e no país. Em escala nacional, o impacto econômico do Airbnb aumentou 13% em 2025 em relação ao ano anterior, enquanto a contribuição para o PIB avançou 12%.

Os dados, porém, não encerram a discussão sobre o futuro da hospedagem na capital. De um lado, a expansão do aluguel por temporada amplia a oferta e movimenta renda em diferentes regiões. De outro, a hotelaria cobra uma discussão sobre regras e condições de concorrência entre modelos que cada vez mais disputam o mesmo hóspede.

Com informações do Jornal de Brasília

LEIA TAMBÉM

Confira Também